domingo, 11 de janeiro de 2009

DE POETAS E FANTASMAS (2)

Segundo da série (iniciada aqui), espero que gostem do tema, pois acho que postarei mais 3 ou 4 e ainda sobrarão muitos poetas, causos e belezas de Ouro Preto...

O poeta
Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), poeta ouro-pretano considerado um dos maiores representantes do Simbolismo no Brasil, foi promotor de justiça no Serro e juiz em Mariana, onde morreu. Também considerado o mais místico dos poetas brasileiros "tratou em seus versos de amor, morte e religiosidade. A morte de sua noiva Constança [filha do poeta Bernardo Guimarães], em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, cujos versos, melancólicos e musicais, são repletos de anjos, serafins, cores roxas e virgens mortas." [citação daqui]

Suas obras completas só foram publicadas em 1960, das quais destaco os versos que seguem.

Ossa Mea
II

Mãos de finada, aquelas mãos de neve,/ De tons marfíneos, de ossatura rica,/Pairando no ar, num gesto brando e leve,/Que parece ordenar mas que suplica.
Erguem-se ao longe como se as eleve/Alguém que ante os altares sacrifica:/Mãos que consagram, mãos que partem breve,/Mas cuja sombra nos meus olhos fica...
Mãos de esperança para as almas loucas,/ Brumosas mãos que vêm brancas, distantes,/ Fechar ao mesmo tempo tantas bocas...
Sinto-as agora, ao luar, descendo juntas,/ Grandes, magoadas, pálidas, tateantes,/Cerrando os olhos das visões defuntas...

Foto de Alphonsus de Guimaraens
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O causo
Por conta da existência da UFOP - Universidade Federal de Ouro Preto e seus afamados cursos de engenharia e mineralogia, Ouro Preto é também uma cidade de estudantes, em geral egressos de outros locais e que moram nas diversas repúblicas espalhadas pela cidade. O causo de hoje vem de uma delas (república Quitandinha) e foi contado pela jornalista Neide Magalhães (leiam matéria completa aqui).

"Um dia, uma turista encontrou uma velha senhora no primeiro piso da república, com quem conversou longamente. Ao perguntar-lhe se era parente de algum dos moradores, seu nome e onde morava, a mulher lhe disse que era muito amiga de Bernardo Guimarães (poeta e romancista mineiro, que morreu em 1884) e que morava logo ao lado da casa. A moça subiu e comentou com os estudantes que tinha conhecido uma senhora muito educada no primeiro andar e tudo o que ela lhe dissera. Foram ver quem estava lá e não encontraram ninguém. Outro se lembrou que Bernardo Guimarães era um poeta ouro-pretano, que já havia morrido há muito tempo e estava enterrado no cemitério da igreja [de São José]. Ao seu lado, o túmulo de uma mulher com o mesmo nome que a turista dissera. Quando a moça soube da história, juntou suas coisas e nunca mais voltou à república. Dizem até que ela nunca mais voltou a Ouro Preto."

Igreja (e cemitério) de São José, em Ouro Preto
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A música
Não sei bem por que, mas achei que a "Bachianinha n° 5", de Villa-Lobos, combinaria com esse post. Uma certa tristeza ou melancolia, talvez...
Esta composição é, certamente, a mais conhecida e gravada do maior compositor brasileiro de todos os tempos. Escrita para soprano e oito violoncelos, clara e intencionalmente inspirada na famosa "Ária da Quarta Corda" (ou "Air on a G String"), de Bach; teve nas divas Bidu Sayão e Maria Lúcia Godoy (a "Patativa de Minas") suas maiores intérpretes.
São 2 movimentos, mas o mais conhecido é a Ária (Cantilena) - Adágio, que recebeu letra de Ruth Valadares Correa (muitas vezes atribuida a Manuel Bandeira) e é belíssima também, pelo que abaixo a reproduzo. .

Ária (Nuvem rósea)

Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente/ cruza no espaço sonhadora e bela/ Surge no infinito a lua docemente/ enfeitando a tarde qual meiga donzela/ que se apressa a linda sonhadora mente/ em anseios d'alma para ficar bela/ grita o céu, a terra, toda a natureza/ cala a passarada aos seus tristes queixumes/ e empresta ao mar toda a sua beleza/ Suave a luz da lua desperta agora/ a cruel saudade que ri e que chora/ Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente/ cruza no espaço sonhadora e bela.
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Há dezenas de versões disponíveis na web ("oiçam" aqui na linda voz de Maria Lúcia Godoy e aqui na de, em minha opinião ainda insuperável, Bidu Sayão). Gostei muito desta que segue abaixo, com violão e voz apenas. Infelizmente não posso dar os créditos...

Villa Lobos - Bachiana 5

10 comentários:

  1. Ei, amore!!!!

    Sim, terminam minhas férias - qualquer dia em conto a saga desses últimos 15 dias, por enquanto basta dizer que na segunda volto ao batente e poderei, enfim, descansar...

    Gosto sim do tema, podemos ler co prazer mais 3 ou 4, e casos e histórias de Ouro Preto também tenho alguns.

    Mas Maria Lúcia Godoy não é de meu gosto não... Não consegui ouvir a versão que vc postou, pra tentar identificar, sorry...

    Beijo e tudo de bom!

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  2. Ei Luciana,
    espero que não tenha ido pra Portugal de novo... rsss

    Tá vendo? É sempre bom a gente tirar umas férias das férias... Aqui tudo bem, apesar de ser chato ficar todo esse tempo sem seus posts e comments. Até a Luletras voltou!!!

    Você tem tanto crédito por aqui que nem fez muita diferença ter discordado do Drummond quanto à ML Godoy... Sobre ela falou JK: "A mais bela, a mais comovente,
    a mais importante voz deste país." E Tancredo: "Quando ela canta é o coração de Minas que se externa, é a própria Minas Gerais que se encontra num dos momentos mais altos de sua poesia, de sua beleza e do seu encantamento."

    Querida, deve ser porque você usa um navegador que não é compatível com o player, por exmplo o Mozzila. Tente esse link: http://www.mp3tube.net/musics/Villa-Lobos-Bachiana-5/21960/

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  3. Ah Luciana, me esqueci:
    então a senhora está convidada a fazer a próxima postagem sobre o tema. Visse?

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  4. RM, prefiro Lu Carvalho, quanto ao vinho do Porto, eu apenas levei a fama e não deitei na cama. O Sr. MR até hoje não enviou a minha garrafa do Pinto, fiquei só na vontade... rsrs

    Beijos

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  5. “Ó sonora audição colorida do aroma!”

    Sinestésico o post de hoje, RM

    Perfeito.

    Deliciosa combinação. Poesia e música, no compasso mineiro dos causos contados pelo mineirim mais gentil que eu conheço...

    Bachianas 5. A atmosfera sublime que a boa música proporciona; o som penetrante a guiar os sentidos para sorver a beleza desse tempo distinto do que vivemos...

    Que lindo e q bom saber que vem mais por aí.

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  6. Ei dona Lu Carvalho (ex-Luletras),
    até hoje? Ah, não acredito... Sem o Pinto todo esse tempo? rsss

    Cora,
    se não me falta a memória, estes são versos do referido poeta sobre a sua indescritível cidade.
    Perfeita também a sua definição dessa bachianinha: é pra viajar mesmo!

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  7. áhhhh, que post lindo!só gentilezaas!!! mesmo os sentimentos tristes do poeta e a história sobrenatural são lindos, delicioso, mineiríssimo!
    ainda me mando pra aí, uai!
    beijoooooooO
    : )

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  8. gostei. posso linkar?

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  9. Bem vinda Lia!
    Também gostei, principalmente de suas preferências musicais, bom presságio...

    A mim é que me honra ser "linkado" por você.

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  10. Ju, moça de generosa beleza,
    reconheço certa generosidade em excesso no seu comentário mas, claro, me agradou muito...

    Daqui um pouquinho farei um comentário no seu blog e vou me valer do velho Caymmi. Pra manter a homogeneidade aqui, citarei uma frase do mais baiano dos baianos:

    "Gosto de Minas, da cordialidade rural. É muito mais repousante do que a Bahia, do que o Rio, do que tudo. Lá é que é lugar de repouso. Você respira outro ar, outra vida. Minas coopera com sua saúde."

    Sei que você está esbanjando saúde, mas ainda assim as montanhas a esperam...

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