terça-feira, 3 de novembro de 2009

SAUDADE BRASILEIRA (4/5)

Para Udi Tarora


Imagem copiada daqui


O exílio de fato ou o futuro interrompido


No período que vai de meados dos anos 60 a meados dos 80 - e que corresponde ao ciclo ditatorial iniciado em 1964 - creio haver 3 aspectos dignos de ênfase: a) a experiência concreta do exílio; b) a idéia, fortemente arraigada, de que bastaria a retomada do processo democrático para que fossem resolvidos todos os problemas do país; e, c) o deslocamento da poesia e da retórica para a música popular.

Quanto ao primeiro aspecto é certo que desde o fim do período colonial até, pelo menos, a promulgação da Constituição de 1946, sempre houve limitações ao caráter democrático da sociedade brasileira. Na fase imperial (1822-1889) basta lembrar que ainda vigia o regime escravista; durante toda a Primeira República (1889-1930) não foram poucas as tentativas de golpes de estado e mesmo após 1946 prevaleceu certo caráter conservador que levou, por exemplo, alguns partidos políticos para a clandestinidade. Mas foi na época do chamado Estado Novo (1937-1945), período de exceção, que mais aflorou o caráter autoritário das instituições brasileiras.

E, no entanto, nem em plena ditadura varguista é possível falar-se em exílio no sentido clássico, grego: de exclusão social, de ostracismo. O exílio, como experiência real para muitos brasileiros e como política de Estado, só ocorre com o golpe de 64 (e a partir de fins dos 80 inaugura-se uma nova forma de exílio, a migração voluntária para outros países...).

O segundo aspecto liga-se à visão de que o regime ditatorial pós-64 representou um hiato no caminho, inexorável, de o país realizar seus desígnios; o que resultou, de certo modo, na crença de que bastaria restabelecer-se o regime democrático para alcança-los. Seguem algumas releituras do célebre poema de Gonçalves Dias, relacionadas a esse período:


Em 1964 o poeta português Armando A. C. Garcia, publica A minha Terra, falando de outra terra e outra saudade, mas parecendo antever:
"(...) Tem zimbros, tem carrascos e fragas nuas.
Neve nas serras, no azul, a imensidade,
Na minha terra, mora minha saudade
Que, à noite em sonho perambula pelas ruas.

Na minha terra o branco do luar é mais branco.
As gotas do orvalho são frias geladas...
As terras ficam secas, e empedradas
Quando, as geadas brancas, cobrem o campo (...)"


Em 1968 Torquato Neto (1944-1972) e Gilberto Gil compuseram Marginália II, cujos versos explicitam "o exílio em casa":
"Aqui, o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas, palmeiras
Araçás e bananeiras
Ao canto da juriti

(...) Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente da morte

Aqui é o fim do mundo."


No mesmo ano e com o mesmo sentido, Tom Jobim e Chico Buarque compõem Sabiá, clássico definitivo da música brasileira, que dialoga com os versos originais e assenta o sentido da palavra saudade, no caso brasileiro:
"(...) Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer (...)"




Em 1969 Rubem Braga (1913-1990) publica, em Ai de ti, Copacabana:
"Se eu dissesse que cantava, mentiria. Não cantava. Estava quieto; demorou-se algum tempo, depois partiu.

Mas eu presto meu depoimento perante a História. Eu vi. Era um sabiá, e pousou no alto da palmeira. “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá.” Não cantou. Ouviu o canto de outro sabiá que cantava longe, e partiu.

Era um sabiá-laranjeira, de peito cor de ferrugem; pousou numa palmeira cheia de cachos de coquinhos, perto da varanda. Ouviu um canto distante, que vinha talvez dos pés de mulungu. Sabeis, naturalmente: é agosto e os mulungus estão floridos, estão em pura flor, cada um é uma grande chama cor de tijolo. Foi de lá que veio um canto saudoso, e meu sabiá-laranjeira partiu.

Mas ele estava pousado na palmeira. Descansa em paz nas ondas do mar, meu velho Antônio Gonçalves Dias; dorme no seio azul de Iemanjá, Antônio. Ainda há sabiás nas palmeiras, ainda há esperança no Brasil."


Em 1970, do outro lado do espectro ideológico, Don e Ravel compõem Eu Te Amo, Meu Brasil:
"As praias do Brasil ensolaradas
O chão onde o país se elevou
A mão de Deus abençoou
Mulher que nasce aqui tem muito mais amor
O céu do meu Brasil tem mais estrelas
O sol do meu país mais esplendor
A mão de Deus abençoou
Em terras brasileiras vou plantar amor

Eu te amo meu Brasil, eu te amo
Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil
Eu te amo meu Brasil, eu te amo
Ninguém segura a juventude do Brasil (...)"




Em 1973 José Paulo Paes (1926-1998) publica sua Canção do Exílio Facilitada:
"lá?
ah!
sabiá...
papá...
maná...
sofá...
sinhá...

cá?
bah!"


Em 1976 Taiguara (1945-1996) compõe Terra das Palmeiras (assinada por sua primeira esposa, Gheisa Gomes):
"Sonhada terra das palmeiras
Onde andará teu sabiá?
Terá ferido alguma asa?
Terá parado de cantar?

(...) Ah! minha amada amortalhada
Das mãos do mal vou te tirar
Pra dançar danças de outras terras
E em outras línguas te acordar."


Em 1985 Cacaso (1944-1987) dá sua versão sobre o chamado "milagre brasileiro", em Jogos Florais I:
"Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre."


Em 1988 Paulo Mendes Campos (1922-1991) publica sua Nova Canção do Exílio, espelhando o que ficou conhecido como "Nova República":
"Minha terra tem coqueiros
Sabiá já foi pro brejo (...)
Brasileiras, brasileiros
Daqui vou pro Alentejo."
.

24 comentários:

  1. Excelente post, Mineirim.

    História, profundidade, colectânea, investigação, raízes, cultura.

    Os piripaques estão te fazendo bem, heim?

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  2. Ora, ora, Portuga,
    muito agradecido com as referências elogiosas...

    (afinal piripaques devem servir para alguma coisa...)

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  3. Mr. Almost disse tudo. Excelente pesquisa. Agora, em tamanho, só perde pras postagens do MR...rsrs
    Fica na paz aí e descansa.

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  4. Grande japa,
    agradeço o gentil comentário e, claro, retribuo os votos...

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  5. Êta post bem porreta meu amigo!!! Adorei...

    I love the way you write...

    Beijos
    Anne

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  6. EEEEEEEEEE "Eu te amo meu Brasil..." foi palco de muito dançarrrrrrrrrr... :-)

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  7. Ei Anne,
    muito obrigado pela generosidade do comentário.

    Você sabe que esses sujeitos, Don e Ravel (e também Os Incríveis) ficaram definitivamente marcados (e merecidamente, diga-se de passagem) pela patrulha de esquerda. E o mais curioso ainda: Sabiá, verdadeiro hino do exílio foi vaiada por não ter siso entendida como uma "música de protesto". Só no Brasil... rss

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  8. Ei parceirim!
    Tô com a página aberta desde o início da tarde e só agora deu uma brecha prá dizer o quanto gostei e me emocionei com o post!
    Sabiá é o máximo e essa versão é especialzíssima.
    Tenho a impressão que, se você analisar as origens de novas visitas ao blog, irá encontrar gente em busca de material sobre história do Brasil. Para quem quiser ter uma forma criativa e poética de olhar a história do autoritarismo no país, este é, realmente um material precioso.
    Moço, cê é bão messs, sô!
    ;)

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  9. Ei dona japinha,
    será que eu sou? rss

    A idéia do "sonho interrompido" eu devo a você e ao seu post no RM NO VERBO (http://verbofeminino-rm.blogspot.com/2009/07/amor-e-liberdade.html) e acho que foi mais um equívoco dos muitos que ocorreram naquele período.

    Muito obrigado, querida!

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  10. Mama mia, nem sei por onde eu começo!!...
    Foram tantas emoções encontradas em uma só postagem, que valeram por mil!
    Vcs falam da "generosidade" de meus comentários, como se excessivos fossem... mas não são, não! Apenas tento retribuir à generosidade que nos é passada, como agora, nesta aula de história, recheada de sensibilidade e regada à cultura, muita cultura!! Vc consegue nos dar um banho de talento, Rm, e sempre com muita humildade... como se não acreditasse no seu próprio potencial, derramado abundantemente aos nossos olhos, captados pelos nossos corações e, de quebra, capturando nossas emoções!
    Ando numa fase de tantas perdas em minha vida, que ter tido a chance de voltar ao passado, à época de arquibancada nos Festivais da Canção, das vaias distribuídas ao Sabiá, como tb ao "sem Lenço, sem documento", de nosso Caetano, e tantas outras que os nossos gênios, ainda que jovens, já enxergavam o que não tínhamos competência, nem maturidade pra ver!... Lembro-me de uma música americana, aplaudidíssima, à época, pelo Maracanã em peso...
    ( acho que cantada por Michael Roberts! Será este o nome do cantor ?? rs) Quanto despreparo por parte de uma juventude, que não sabia o preço da liberdade, e muito menos o seu real valor... Cresci e fiz parte desta geração, meio que desavisada do que realmente estava a acontecer, e ainda sem idade pra fazer parte de passeatas e protestos tão duramente reprimidos e sem um término feliz!
    Filha de pai militar, que apenas mandava que ficássemos de bico calado, e nos proibia de fazermos parte de qualquer turminha de rua... Pai arbitrário, adolescência cerceada, casamento e maternidade, precoces... Eis um pequeno resumo deste passado que me fez chorar, ao reler tão belos poemas e canções, aqui apresentados, por vc, Rm !! Assistir ao vídeo de Sabiá, foi como se estivesse a receber uma oferenda dos Deuses...
    Obrigada, amigo inteligente, sensível, refinado, esclarecido e sabe-se lá mais o quê!!... rs
    E não venha me dizer que estou sendo generosa... pois juro que tomo um avião e vou pra "Belzonte" encher de cascudos essa adorável cabecinha !!... rs
    Helô

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  11. RM,

    Teu post é como uma aula boa, prazerosa, daquelas que, quando o sinal avisa que o período acabou, ouve-se um "Aaaaaaaaahhhhhh!", na sala, mostrando que a turma queria mais.

    Tudo me apeteceu, e aprendi coisas novas, o que me agrada muito.

    * Aproveito para deixar um beijo para a Udi, que eu não via há tempos.

    ** Li ontem, mas meu comentário não entrou de jeito nenhum.

    Beijos, dois.

    ℓυηα

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  12. Helô, querida,
    não é excesso de modéstia (muito menos humildade), mas razoável dose de auto-crítica, o que de certo modo já revela falta de modéstia... rss
    Fico muito feliz que tenha agradado e se for necessário tomar uns cascudos para conhecê-la, pode comprar a passagem de avião... rss

    Luna,
    gostar de aprender é uma importante qualidade; o que no seu caso parece concorrer com a inteligência, a beleza e o bom humor, qualidades igualmente importantes.
    Agradeço muito!

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  13. Ei parceirim,
    até onde me foi permitido conhecê-lo, cê é bão sim! ;)
    (huáhuáhuá...!)

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  14. Ué, alguém te proibiu de me conhecer melhor? rss

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  15. (...mais risos!)
    Só a distância, querido!

    Agora falando sério. Essa é procê:
    http://www.youtube.com/watch?v=_PhIm8aW89w

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  16. Rss

    Não tem vôo Sampa-Belô, não? rss


    (essa do Gullar, maranhense como Gonçalves Dias, abrirá o último da série...)

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  17. vixi! dei um "furo" de reportagem?
    ...tá vendo que não precisamos de ponte aérea prá estarmos perto?!
    ;)

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  18. Ei Christina,
    não tenho certeza de que foi elogio, mas agradeço assim mesmo... rss

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  19. Grande RM:

    Excelente post, no mesmo nível dos anteriores desta série. E você querendo chutar o balde! Haveria passeata de protestos pela primeira vez na web, uma passeata virtual, claro, se isso acontecesse, tenho certeza.

    Juntando todos os da série, viram um verdadeiro ensaio sobre este a saudade. Por falar em música que faça referência a este sentimento, você conhece a guarânia composta (letra e música) pelo escritor Mário Palmério, mineiro de Monte Carmelo, mas que morou quase a vida inteira em Uberaba, na época ele era embaixador do Brasil no Paraguai?
    Chama-se "Saudade", na versão em português, ou "Soledad", na versão castelhana. É uma belíssima canção, mas acho que ela não está disponível do YouTube, embora já tenha sido gravada até pelo Renato "Romaria" Teixeira.

    Abraços,

    MR
    6/11 - 00:28

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  20. Grande MR,
    um elogio do qualificadésimo amigo faz diferença, apesar de amigo: agradeço muito.

    Não, não conheço a canção do grande autor de "Chapadão do Bugre". Você tem em arquivo digital?

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  21. Oi, RM:

    Não tenho o arquivo, mas vou tentar conseguir para você. Talvez ele possa fazer parte do último post da série. Tenho certeza de que você vai gostar. Em Uberaba, é obrigatório saber cantar "Saudade", do saudoso autor, também, de "Vila dos Confins", dois grandes clássicos da literatura brasileira.

    Farei contato via e-mail, se conseguir.

    Abração,

    MR
    6/11 - 12:34

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  22. Não canso de escutar essa versão de Sabiá. É linda! Que saudade será essa que estamos fadados a sentir? Seria mesmo herança dos portugas? ...ou - o meu caso específico - dos japas?! :)

    thanks again, parceirim!

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