terça-feira, 10 de março de 2009

DE POETAS E FANTASMAS (3)


Vista do altar-mor da Matriz de Nossa Senhora do Pilar

Mais que as "365 igrejas que a Bahia tem" (num cálculo algo exagerado de Caymmi), Ouro Preto se confunde com suas igrejas. Cada uma - e são muitas - com beleza e história próprias e estórias várias. A riqueza de seus interiores; o contraste com a sobriedade de sua arquitetura; a arte barroca, em conjunto sem similar no mundo; o papel das irmandades, presente ainda hoje; a profunda religiosidade de seu povo... são características da cultura e da formação dos mineiros, herdadas da antiga Villa Rica.

O novo post da série (leiam os outros aqui e aqui) trata um pouco das lindas igrejas de Ouro Preto.


O(s) poeta(s)

Escolhi dois poemas que abordam o tema. Dos poetas: Paulo Mendes Campos, belorizontino, escritor e jornalista, dividiu com Fernado Sabino, Oto Lara-Rezende e Hélio Pelegrino a obra da famosa geração de 45. O outro, da geração anterior e itabirano, dispensa apresentações...

Reza (Paulo Mendes Campos)

Nosso Senhor do Bonfim,
Não deixeis que Vila Rica tenha fim.
Nossa Senhora do Rosário,
Preservai o vosso relicário.
Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias,
Deitai o vosso olhar sobre estas pedrarias.
Nossa Senhora do Morro do Cruzeiro,
Tende misericórdia da pátria do mineiro.
São Francisco de Assis,
Arrebanhai as capelas todas e a matriz.
Nossa Senhora das Mercês e dos Perdões,
Rogai por Vila Rica em suas comoções.
São João Batista,

Abençoai vossa capela e seu artista.
São Sebastião,

Defendei a inocência da pedra-sabão.

Sant’Ana, Protegei a humanidade vila-ricana.
Nossa Senhora das Necessidades,

Protegei Vila Rica nas enfermidades.

Nossa Senhora das Dores,
Tende compaixão, nestes ares sujos, destas velhas cores.

Nossa Senhora da Piedade,
Atendei Vila Rica na hora da orfandade.
Nossa Senhora do Pilar,

Fazei de Vila Rica vosso altar.

Nossa Senhora do Rosário dos Pretos dos Alto da Cruz,

Conservai Ouro Preto, Vila Rica de Jesus.



São Francisco de Assis (Carlos Drummond de Andrade)

Senhor, não mereço isto.
Não creio em vós para vos amar.

Trouxestes-me a São Francisco

E me fazeis vosso escravo.

Não entrarei, senhor, no templo,

Seu frontispício me basta.

Vossas flores e querubins

São matéria de muito amar.

Dai-me, senhor, a só beleza

Destes ornatos.
E não a alma.

Pressente-se a dor de homem,
Paralela à das cinco chagas.
Mas entro e, senhor, me perco
Na rósea nave triunfal.

Por que tanto baixar o céu?

Por que esta nova cilada?
Senhor, os púlpitos mudos

Entretanto me sorriem.

Mais que vossa igreja, esta

Sabe a voz de me embalar.

Perdão, senhor, por não amar-vos.


O(s) causo(s) de fantasma

Como seria de se esperar, grande parte das lendas e causos assombrosos ligados à cidade, tem origem na fé católica e nos períodos da quaresma e Semana Santa. Segue texto, daqui, adaptado de “Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto”, de Angela Leite Xavier.

"Uma lenda diz que, debaixo da Matriz de Nossa Senhora do Pilar, existe muito ouro. Dizem até existir um túnel debaixo dela que vai dar no Morro da Queimada. Por ele, os escravos de Paschoal da Silva Guimarães teriam tentado salvar o ouro de seu senhor quando o morro foi queimado por ordem do Conde de Assumar. Muitos escravos teriam morrido lá embaixo em conseqüência dos desabamentos. Por isso, até hoje, ouvem-se suspiros profundos das almas penadas daqueles mortos. Na verdade existe uma boca de mina debaixo da igreja. Ela foi descoberta por ocasião da restauração da igreja. Os homens desceram pelo porão, batendo o rosto nas muitas teias de aranha e afundando os pés na camada fofa de pó que cobria o chão. Deram com a boca da mina mas, em condições muito precárias, o que impediu o acesso ao seu interior.

Uma vez, tarde da noite, um cônego foi chamado para dar assistência a um doente muito mal em seu leito. O religioso foi até a Igreja do Pilar buscar o viático para ministrá-lo ao enfermo. Dentro da igreja estava um seu irmão de ordem, desconhecido, ajoelhado, rezando. Como as portas estavam trancadas, o vigário não entendeu como o desconhecido havia entrado lá e perguntou a ele. Surpreso, ouviu-o dizer que morava ali mesmo. Em seguida, desapareceu, deixando o cônego de boca aberta.

Antigamente havia uma fábrica de pigmentos naturais perto da Capela da Piedade. Toda aquela região é rica em pigmentos de vários tons, muito usados, antigamente, nas pinturas artísticas e de casas.

Havia um senhor que era fiscal daquela fábrica e ia lá todos os dias fazer o seu trabalho. O local era deserto, não havia nenhuma casa nas redondezas, apenas a capela e o galpão das tintas.

Uma tarde quente de sol, estava ele dirigindo-se à fábrica, como sempre fazia. Quando passou próximo ao adro da capela, avistou um padre aproximando, com aquela batina preta cheia de botões, chapéu preto, vindo dos lados do Padre Faria. O padre caminhava rapidamente, de cabeça baixa, em direção à porta da capela.

O fiscal da fábrica tentou se aproximar para conversar com o padre. Então aconteceu o inesperado. O padre desapareceu bem na porta da capela. O pobre homem ficou atônito.

Esse fato voltou a acontecer muitas outras vezes, presenciado pelo mesmo fiscal. O padre, andando apressado e desaparecendo na porta da capela de Nossa Senhora da Piedade.

Muitas igrejas em Ouro Preto têm mistérios ainda não desvendados. Na Igreja do Rosário, podem-se ouvir, à noite, tambores e cantos maravilhosos. Ao ouvir esse som, muita gente, vencendo o medo, costuma encostar a cabeça nas paredes de pedra e ficar assim por muito tempo, apreciando a beleza daquela música misteriosa.

Também na Igreja de São Francisco de Assis, muitos já ouviram gemidos e arrastar de correntes, em plena madrugada. Também foi visto no interior do templo, um irmão com hábito preto, rezando o breviário.

Dentro da Igreja do Carmo, ouve-se um arrastar de chinelos. Dizem que é Maria Chinelaque assombrando. Ela era uma preta velha que limpava a igreja e estava sempre arrastando seus chinelos pelas ruas de Vila Rica.

No interior da Igreja de Santa Efigênia, ao meio-dia, estando a mesma fechada, ouviu-se conversa de negros Mina, com seu sotaque característico. As vozes vinham da capela- mor.

Muitas vezes, à noite, velas acesas foram vistas sobre as campas do cemitério da Capela de Nossa Senhora das Dores.

A Igreja de São Francisco de Paula, muito antes de possuir iluminação elétrica, foi vista toda iluminada, brilhando na noite escura.
"


A música

Se o valor cultural da arte barroca de Ouro Preto é sobejamente reconhecido, inclusive em termos internacionais; o mesmo não se pode dizer das letras, efeito provável da pouca difusão do idioma português. Mas o que pouca gente sabe é que também a música feita naquele período é muito admirada e tocada, no mundo todo. Este feito deveu-se, mais uma vez, a um estrangeiro: é ao musicólogo alemão Curt Lange, que se tributa o garimpo e a descoberta de velhas partituras perdidas de autores barrocos. Os mais importantes compositores dessa época foram Manoel Dias de Oliveira, Marcos Coelho Neto, Joaquim Emérico Lobo de Mesquita e o Padre José Maurício Nunes Garcia. Desses quatro, apenas o último não é filho das terras de Vila Rica ou de seus domínios.

Abaixo vídeo com imagens de Ouro Preto sob a "Magnificat", de Manoel Dias de Oliveira.

19 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Sensacional meu caro RM, excelente postagem, eu adoro história e estórias. Aqui nos Campos dos Goitacases há um antiquíssimo Mosteiro de São Bento, hoje quase desativado, sua arquitetura é barroca, porém as armações e suas coberturas douradas, infelizmente foram destruidos em um incêndio em 1965. Também se conta por aqui essa fábula do tunel, só que o dito seria para fuga dos monges em caso de invasão, dizem haver tesouros enterrados por lá. Talvez seja cópia ou o famoso boca a boca da mesma estória. O Altar mor da primeira Capela de seu post é muito semelhante ao do Mosteiro de São Bento do Rio, algo muito bonito também. Abraços!

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  3. Valério,
    acho mais fácil serem verdadeiros os "causos", ao menos dos túneis... Legais as informações que você acescenta.

    Há dois sites muito bons, nos quais você pode ter uma ideia das igrejas:

    http://www.fotosdeminas.com.br/fotosminas/port/igrejas.asp

    http://www.trekearth.com/themes.php?thid=8841

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  4. Ei moço,
    até que prá um materialista-cartesiano você transita bem por estas paisagens, nénão?
    Drummond é de se esperar mas Paulo Mendes Campos?!... aí é covardia!

    Explico: ainda ontem entrei na livraria Cultura e prá levar A Viagem do Elefante quando me ocorreu: "como é mesmo o nome daquele cara que eu tanto quero ler?" (...sim, um enorme e vergonhoso vazio em minha prateleira!). Ganha um doce se adivinhar o nome do autor.

    Destravou a minha matraca novamente! ...ainda tenho mais a dizer... mas, por ora, é só.

    Thanks much por soterrar o trash anterior com essa postagem maravilhosa! A audiência aplaude!

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  5. Rmzinho,

    sabe a impressão que eu tive? Pedi uma amostra e você veio com o carregamento todo.
    Melhor dizendo, te agradeço!
    A postagem é uma aula. Fiquei pensando se você escrevesse livros de viagem, seria muito bom.
    Boa sorte lá nos novos campos gerais.
    E tua postagem me dá mais vontade ainda de ir pra Ouro Preto. Tem algo em Minas, desde os anos setenta, que me atrai. Pelo jeito, além de mais de 365 igrejas, é o modo carinhoso e amigo como alguns mineiros sabem tratar os amigos.
    Beijos

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  6. Bom dia, sol!
    Onde estão as notícias matutinas prá digerir ainda em jejum? (...risos!)

    Você foi assunto ontem, viu? (...mais risos!)
    ;)

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  7. Udi,
    transito? rss
    Gosta dos "4 terríveis de BH"? Consta que eles barbarizavam a cidade nos tempos de juventude...
    Ah, podem falar mal; já tô acostumado... rss

    Elianinha,
    a professora aqui é você, nega! rss
    É bastante possível que você conheça, mas para os pobres mortais (como euzinho) informo que o clássico "guia de viagem" sobre Ouro Preto, escrito por ninguém menos que Manoel Bandeira, foi recentemente reeditado.
    Os "alguns mineiros" aguardam, ansiosamente, nova visita às montanhas da mais mineira das baianas nascida em Sampa...

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  8. ...transito?!

    (não estou conseguindo ouvir as canções... transito?)

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  9. Ué, você que falou que eu "transito"! rss

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  10. Meu lindinho,
    sabe que
    A mais mineira das baianas nascidas em Sampa quase me define?
    Estou me dando de presente essa ida às montanhas. Essa queimadura tem que servir pra alguma coisa. E fico só imaginando a outra, a L., alguma mineira, com quem espero tomar todas!

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  11. ...é verdade, procê vê que pela manhã eu só presto pro noticiário político-econômico. Ou talvez prá uma fábula sifu (...risos!)

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  12. Baianinha,
    a outra. L.? rss

    Udi,
    mas eu coloquei aí as notícias matutinas. E já é "de tarde"! rss

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  13. Ai, mineirim...
    Que coisa mais linda essa sua paixão pelas Gerais. É contagiante!
    E que diliça de causos! União de mundos! Sincretismo mais que religioso.
    Que beleza de orações em forma de poemas. Sarava, meu Pai!!
    Salve Xango e Oxum, senhora do ouro...rs

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  14. Udi, fábula sifu é ótimo...
    Vcs são impagáveis (ou impecáveis)
    e logo desde cedo...

    Cora, você pode tomar todas também?

    Beijos

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  15. Ei Cora,
    e que coisa mais linda esse seu jeito de comentar. Até passa (um pouco) a vontade (enorme) que tenho de detonar esse bloguinho... rss

    Thanks, querida.

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  16. (rs)... bebeu, foi, Eliana?

    Eu posso tomar todas... Demais da conta, sô! Mais nem!

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  17. Ah! Ouro Preto!
    Ainda não conheço, mas posso sentir a ode e o brio que vem de lá, apenas ao ler-te, RM!
    Bela gentileza!!
    Um beijo.

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  18. Muito obrigado, Capitu,
    programe uma viagem; vale a pena!

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