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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

SAUDADE BRASILEIRA (5/5)

Para Udi Tarora

Termino aqui (em ritmo baiano) a série iniciada há um ano. Aos que desejarem ler as demais postagens basta clicar na tag "saudade brasileira".


"Ruínas de uma escola em construção": assombro, perplexidade e desalento 

A frase, genial, é de Caetano Veloso, do início da década de 90; os sentimentos são meus e perduram... Com a redemocratização do país, em meados dos 80, ao porre libertário seguiu-se uma combinação de gravíssima crise econômica e inapetência do sistema político. A crise foi superada. Elegeram-se, democraticamente, três novos presidentes, dois deles por duas vezes; mas os estragos parecem duradouros...

No período Collor-Itamar (1990-1994), o assombro: a democracia não bastava. Nem para se resolver a crise econômica, nem para se evitar a política, menos ainda para erigir ética na coisa pública. E o discurso liberal, ainda que adequado, chocava-se, escandalosamente, com a realidade social do país.

Nos anos Fernando Henrique (1995-2002), finalmente foi possível superar a crise econômica herdada ainda do tempo da ditadura. Avanços importantes também foram obtidos no campo institucional, mas a social-democracia brasileira - tal qual jabuticaba -, aliou-se a setores conservadores e/ou fisiológicos para aprovar o projeto que mais interessava aos grupos no poder: a própria reeleição. Perplexidade! Ampliada por quadra externa pouco favorável...

A era Lula (2003-?) combinou as formas mais atrasadas de aliança política à reversão do quadro externo, agora extremamente favorável, - e ao mito (ou mistificação) do presidente popular. A boa performance econômica ajudou a disfarçar o crescimento baseado no crédito, o populismo e mesmo a malversação da coisa pública. E até a democracia parece hoje ameaçada: desalento...


Seguem alguns textos relativos a esses últimos 20 e poucos anos, sempre inspirados no original de Gonçalves Dias. Interessante reparar que as preocupações extrapolam o mero formalismo antropológico. A "Canção do Exílio", totalmente endogeneizada, serve agora para tratar de qualquer assunto:


Em 1985, Eduardo Alves da Costa publica sua Outra Canção do Exílio.
"Minha terra tem Palmeiras
Corinthians e outros times
De copas exuberantes
Que ocultam muitos crimes.

Em cismar, sozinho, ao relento,
sob um céu poluído, sem estrelas,
nenhum prazer encontro eu cá (...)"


Affonso Romano de Sant’Anna publica, em fins dos 80, sua Canção do Exílio Mais Recente.
"Não ter um país
a essa altura da vida,
a essa altura da história,
a essa altura de mim,
- é o que pode haver de desolado.

(...) Mas sobre país
eu pensava ser como pai e mãe: para sempre.

País
era o quintal e a horta a alimentar a mim
e aos filhos com a sempre zelosa sopa do jantar.
País
era como a Amazônia: desconhecimento da gente
ou como o São Francisco: inteiramente pobre e nosso (...)"


Em 1992, Báh publica O Exílio da Canção.
"Minha terra tem horrores
Tem folia e tendepá (...)

Minha terra não dá terra
Pra se plantar ou morar
Tem muito gado no pasto
E luxúria nos palácios
Muita moita na cidade
Muita fome e impunidade (...)

Minha terra tem igrejas
Minha terra tem favelas
Tem novela e solidão
Menores e prostitutas
Cocaína de plantão (...)

É Sodoma e é Gomorra
Indo sou politeísta
Também sado-masoquista
Miserável brasileiro
Que não tem honra nem glória
Brasileiro miserável
Que não vai entrar pra história (...)"


Iosif Landau publica, em 199?, o seu Exilado.
"(...) minha terra tem palmeiras, onde canta o tiroteio,
— preciso de emprego — falei pro capataz
com cara e jeito de capitão de navio negreiro,
— retornei do Vietnã deixei por lá meu irmão,
— Vietnã o caralho, seu safado,
num tamos em conflito naquelas paragens,
— tá certo, doutor, vim do Morro da Babilônia,
que tá mais quente que a guerra do Afeganistão,
necessito de batente pra comer meu pão,

(...) me mando em torrentes de cólera e loucura
pelas horas vividas sem prazer,
pela tristeza do que eu tenho sido,
pelo esplendor do que eu deixei de ser."


Jô Soares, em meados dos 90, publica sua Canção do Exílio às Avessas.
"Minha Dinda tem cascatas
Onde canta o curió
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

(...) Minha Dinda tem piscina.
Heliporto e tem jardim
Feito pela Brasil's Garden:
Não foram pagos por mim.

(...) E depois de ser cuidado
Pelo PC, com xodó,
Não permita Deus que eu tenha
De acabar no xilindró."


Ferreira Gullar publica sua Nova Canção do Exílio, em 2000.
"Minha amada tem palmeiras
Onde cantam passarinhos
e as aves que ali gorjeiam
em seus seios fazem ninhos

(...) Não permita Deus que eu viva
perdido noutros caminhos
sem gozar das alegrias
que se escondem em seus carinhos
sem me perder nas palmeiras
onde cantam os passarinhos (...)"


Marta Helena Cocco, publica sua Versão Enlatada do Exílio, em 2001.
Em lá
sang sung
som do Sam
soa bem
bang bang.
E cá
sangue sangue
sanguessugas
se dão bem.


Em 2004, Antônio Virgílio de Andrade publica sua Canção do Regresso.
"Minha terra tem paisagens
Que em outro lugar não há;
As aves que aqui trinam
Não trinam como as de lá. (...)

Minha terra faz fronteira
Com a seca e o mar, (...)

Minha terra tem folguedos
Xaxado, baião, frevo, boi-bumbá;(...)

Não permita Deus que eu morra
Sem matar a sede no 'Velho Chico' (...)


Em 2005, Francisco Simões publica Terra Minha.
"Minha terra tem palmeiras... mas também tem muito hipócrita, e, olhe, quanto canalha, e quantos corvos, e quanta gralha, quanta gralha, ''que nos palácios se assoalha, em úberes mananciais de tetas sufragam a sugação do comum";

Minha terra tem palmeiras... e tem milhões sem eira nem beira que vivem a tomar rasteira de discursos, de decretos, de verbas tantas desviadas, para longe ou para perto, onde o esperto prevalece, a nação deve e não cresce, e o social morre sem prece;

Minha terra tem palmeiras... mas também tem bandalheiras, privatizadas ou não, onde meteram e metem a mão, levando os anéis sem deixarem os dedos, sem medos nem CPI, e nós aqui oh, e nós aqui oh;

Minha terra tem palmeiras... e teve Severino, e mais 300 deputados, não cassados, que enxovalharam o destino, plantando o dito, Severino, e se ele não renuncia, a fria ia cobrar a conta, pois é, e que afronta, que afronta; (...)"


Horácio Costa publica, em 2009, seu Sobre Canários e Presidentes.
"Não sei porque ser contra a inspiração
O canário inspira
Assim como o capo em Brasília
E péssimo poeta ex-presidente
Inspira também
Neste universo de extremos
Entre o canto do canário
E José Sarney (...)

Talvez esteja prestando um tributo
À sua própria finitude
Engaiolado na varanda do zelador
Do Memorial José Sarney
Em São Luís do Maranhão (...)"



Era Lula: a "desinvenção" do Brasil

Se houve quem se assustasse com os "desvios de comportamento" da madame social-democrata, o que dizer então da jovem socialista quando chega ao poder! Mas o tema aqui não é ética. É ainda mais fundo: trata da metáfora, da representação, da simbologia do que há de peculiar naquilo que um dia chamou-se Terra Brasilis...

E nesses tempos sombrios assistimos, estupefatos, à apropriação do sonho: nada existia antes do líder carismático; todos devemos aceitar, passivos, a lobotomia oficial. O "país do futuro" vira o país sem passado!

Nunca fomos morenos ou mulatos: somos "afro-descendentes" e brancos, opostos (meu Deus, Gonçalves Dias era mestiço e isto foi a razão do "exílio"!). O milagre das três raças - sonho de José Bonifácio e de Sérgio Buarque - dá lugar à política de cotas.

E pior, muito pior: alguns dos que pegaram em armas, no período da última ditadura são, agora, heróis. E os dela exilados, de fato,  viraram "fujões", covardes. Transformaram o exílio em fuga...



Termino com esses pobres versos de minha própria lavra, mas sugiro Jobim para acompanhar a leitura dos demais poemas, todos muito bons. Apenas por coincidência é a música que mais gosto. Também apenas por coincidência chama-se Saudade do Brasil.


Palmeira estatizada e sabiá mudo
Minha terra tem palmeiras
Estatizadas
Ai, quem me dera os primores

Nosso céu tem mais estrelas
Do que uma única vermelha
Nossas várzeas, escolas inacabadas

Não permita Deus que eu morra
Antes que paguem violadores
Derrotem censores
E libertem o sabiá.


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terça-feira, 3 de novembro de 2009

SAUDADE BRASILEIRA (4/5)

Para Udi Tarora


Imagem copiada daqui


O exílio de fato ou o futuro interrompido


No período que vai de meados dos anos 60 a meados dos 80 - e que corresponde ao ciclo ditatorial iniciado em 1964 - creio haver 3 aspectos dignos de ênfase: a) a experiência concreta do exílio; b) a idéia, fortemente arraigada, de que bastaria a retomada do processo democrático para que fossem resolvidos todos os problemas do país; e, c) o deslocamento da poesia e da retórica para a música popular.

Quanto ao primeiro aspecto é certo que desde o fim do período colonial até, pelo menos, a promulgação da Constituição de 1946, sempre houve limitações ao caráter democrático da sociedade brasileira. Na fase imperial (1822-1889) basta lembrar que ainda vigia o regime escravista; durante toda a Primeira República (1889-1930) não foram poucas as tentativas de golpes de estado e mesmo após 1946 prevaleceu certo caráter conservador que levou, por exemplo, alguns partidos políticos para a clandestinidade. Mas foi na época do chamado Estado Novo (1937-1945), período de exceção, que mais aflorou o caráter autoritário das instituições brasileiras.

E, no entanto, nem em plena ditadura varguista é possível falar-se em exílio no sentido clássico, grego: de exclusão social, de ostracismo. O exílio, como experiência real para muitos brasileiros e como política de Estado, só ocorre com o golpe de 64 (e a partir de fins dos 80 inaugura-se uma nova forma de exílio, a migração voluntária para outros países...).

O segundo aspecto liga-se à visão de que o regime ditatorial pós-64 representou um hiato no caminho, inexorável, de o país realizar seus desígnios; o que resultou, de certo modo, na crença de que bastaria restabelecer-se o regime democrático para alcança-los. Seguem algumas releituras do célebre poema de Gonçalves Dias, relacionadas a esse período:


Em 1964 o poeta português Armando A. C. Garcia, publica A minha Terra, falando de outra terra e outra saudade, mas parecendo antever:
"(...) Tem zimbros, tem carrascos e fragas nuas.
Neve nas serras, no azul, a imensidade,
Na minha terra, mora minha saudade
Que, à noite em sonho perambula pelas ruas.

Na minha terra o branco do luar é mais branco.
As gotas do orvalho são frias geladas...
As terras ficam secas, e empedradas
Quando, as geadas brancas, cobrem o campo (...)"


Em 1968 Torquato Neto (1944-1972) e Gilberto Gil compuseram Marginália II, cujos versos explicitam "o exílio em casa":
"Aqui, o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas, palmeiras
Araçás e bananeiras
Ao canto da juriti

(...) Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente da morte

Aqui é o fim do mundo."


No mesmo ano e com o mesmo sentido, Tom Jobim e Chico Buarque compõem Sabiá, clássico definitivo da música brasileira, que dialoga com os versos originais e assenta o sentido da palavra saudade, no caso brasileiro:
"(...) Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer (...)"




Em 1969 Rubem Braga (1913-1990) publica, em Ai de ti, Copacabana:
"Se eu dissesse que cantava, mentiria. Não cantava. Estava quieto; demorou-se algum tempo, depois partiu.

Mas eu presto meu depoimento perante a História. Eu vi. Era um sabiá, e pousou no alto da palmeira. “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá.” Não cantou. Ouviu o canto de outro sabiá que cantava longe, e partiu.

Era um sabiá-laranjeira, de peito cor de ferrugem; pousou numa palmeira cheia de cachos de coquinhos, perto da varanda. Ouviu um canto distante, que vinha talvez dos pés de mulungu. Sabeis, naturalmente: é agosto e os mulungus estão floridos, estão em pura flor, cada um é uma grande chama cor de tijolo. Foi de lá que veio um canto saudoso, e meu sabiá-laranjeira partiu.

Mas ele estava pousado na palmeira. Descansa em paz nas ondas do mar, meu velho Antônio Gonçalves Dias; dorme no seio azul de Iemanjá, Antônio. Ainda há sabiás nas palmeiras, ainda há esperança no Brasil."


Em 1970, do outro lado do espectro ideológico, Don e Ravel compõem Eu Te Amo, Meu Brasil:
"As praias do Brasil ensolaradas
O chão onde o país se elevou
A mão de Deus abençoou
Mulher que nasce aqui tem muito mais amor
O céu do meu Brasil tem mais estrelas
O sol do meu país mais esplendor
A mão de Deus abençoou
Em terras brasileiras vou plantar amor

Eu te amo meu Brasil, eu te amo
Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil
Eu te amo meu Brasil, eu te amo
Ninguém segura a juventude do Brasil (...)"




Em 1973 José Paulo Paes (1926-1998) publica sua Canção do Exílio Facilitada:
"lá?
ah!
sabiá...
papá...
maná...
sofá...
sinhá...

cá?
bah!"


Em 1976 Taiguara (1945-1996) compõe Terra das Palmeiras (assinada por sua primeira esposa, Gheisa Gomes):
"Sonhada terra das palmeiras
Onde andará teu sabiá?
Terá ferido alguma asa?
Terá parado de cantar?

(...) Ah! minha amada amortalhada
Das mãos do mal vou te tirar
Pra dançar danças de outras terras
E em outras línguas te acordar."


Em 1985 Cacaso (1944-1987) dá sua versão sobre o chamado "milagre brasileiro", em Jogos Florais I:
"Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre."


Em 1988 Paulo Mendes Campos (1922-1991) publica sua Nova Canção do Exílio, espelhando o que ficou conhecido como "Nova República":
"Minha terra tem coqueiros
Sabiá já foi pro brejo (...)
Brasileiras, brasileiros
Daqui vou pro Alentejo."
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domingo, 27 de setembro de 2009

SAUDADE BRASILEIRA (3/5)

Para Udi Tarora

O mestiço de Cândido Portinari


A invenção do Brasil: o país do futuro


São notáveis as gerações de brasileiros que nasceram ao redor da virada do século. Inovaram e se notabilizaram nos mais variados segmentos, da literatura à política, das ciências à música... Excede em muito os modestos objetivos dessa série avaliar as conseqüências dessa coincidência histórica, mas no que a atine - a saber: a questão da formação de alguns aspectos da identidade cultural brasileira - tiveram grande impacto, a partir da Semana de Arte Moderna, em 1922.

Compartilho a opinião dos que defendem que à estas gerações coube a tarefa de "inventar" o Brasil, tal qual o conhecemos. O que existia antes era uma invenção estrangeira. Mas não se pode dizer o mesmo da música de Villa-Lobos, nem da poesia de Drummond, nem da pintura de Portinari, nem do "homem cordial" de Sérgio Buarque de Hollanda... Este Brasil, novo e diferente, encontra na síntese de Stefan Zweig talvez sua melhor definição: "o país do futuro". Retomarei o tema após apresentar alguns versos criados por essas gerações, inspirados nos originais de Gonçalves Dias.


Em 1925, Oswald de Andrade publica seu Canto de Regresso à Pátria. Não mais se trata aqui das belezas naturais e do romantismo exacerbado da pátria amada, mas de uma corrosiva crítica social e ironia com a banca e cafeicultura paulistas, que resumiam as riquezas brasileiras:
"Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
(...) Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
(...) Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo."


Em 1930, Carlos Drummond de Andrade publica Europa, França e Bahia. Aqui até os olhos já são brasileiros:
"(...) Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa.
(...) Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a 'Canção do Exílio'.
Como era mesmo a 'Canção do Exílio'?
Eu tão esquecido de minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
onde canta o sabiá!"


Em 1945, o mesmo Drummond publica Nova Canção do Exílio. Um "exílio" que parece superar as dimensões físicas e geográficas:
"Um sabiá na
palmeira, longe.
Estas aves cantam
um outro canto.
(...) Ainda um grito de vida e
voltar
para onde tudo é belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe."


Em 1947, Cassiano Ricardo, outro expoente do modernismo, publica Ainda Irei a Portugal, versos que parecem escritos sob medida para a tese que aqui defendo:
"Nunca fui a Portugal.
Não por falta de querer (...)
Não conheci meu avô,
senão de fotografia.
Não ouvi, senão em sonho,
o canto da cotovia.
(...) Fui marujo, com certeza,
pois tenho alma azul-marinha.
Vim pro Brasil tão futuro
que nunca soube que vinha.
(...) Saudade assim por herança
de coisas que não conheço,
chega a ser, quase, esperança...
Esperança pelo avesso.


Em 1951, Murilo Mendes publica sua Canção do Exílio. Parece haver claro confronto entre o "paraíso na terra" e o país real, em franco e acelerado processo de industrialização:
"Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
(...) Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!"


Em 1962, Mário Quintana publica Uma Canção. O que em Drummond sussurava, em Quintana agora grita:
"Minha terra não tem palmeiras...
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.
Minha terra tem relógios,
Cada qual com sua hora
Nos mais diversos instantes...
Mas onde o instante de agora?
Mas onde a palavra 'onde'?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus da minha terra
Eu canto a Canção do Exílio!"


O período que vai de meados dos anos 30 a meados dos 60 corresponde àquele que mais viu transformações no país. Em todos os campos imagináveis: éramos cerca de 30 milhões de almas vivendo, na sua imensa maioria, no meio rural e da agricultura (de exportação). Tornamo-nos, ao fim do período, 90 milhões de seres, vivendo em cidades e constituindo uma das principais economias industriais do planeta.

Parecia que o futuro havia, finalmente, chegado. Mas este foi um processo eivado de contradições... À pesada herança colonial somaram-se novos paradoxos, agudizaram-se diferenças, cristalizaram-se impasses. Os chamados "modernistas" captaram bem estas mudanças e reinterpretaram a pátria de Gonçalves Dias. Não mais o selvagem em estado puro, mas Macunaíma; não só a natureza dadivosa e deslumbrante, mas o uso que dela se fazia. Permaneceu a idéia do "éden terrestre", mas agora definitivamente projetado no futuro...


Para acompanhar a leitura, algumas obras do velho Villa, que inventou a música brasileira: O Trenzinho do Caipira, o Prelúdio da Bachiana n°4 e a linda canção Melodia Sentimental (Heitor Villa-Lobos/Dora Vasconcellos), na expressiva voz de Maria Bethânia (os versos iniciais que ela recita são de Vinícius de Moraes, Pátria Minha).


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[era minha intenção terminar esta série no próximo dia 29 de setembro, quando se completará um ano de existência desse chalezinho, data que escolhi para dar por concluídos os seus trabalhos. Bem, não será possível; adentrarei algumas semanas de outubro e tive que reconhecer que ainda precisarei de 2 postagens para concluir o tema]
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

SAUDADE BRASILEIRA (2/5)

Para Udi Tarora
A Mantiqueira, na visão de Rugendas


O Brasil "brasileiro": idílio

Como afirmado na primeira parte dessa série, penso que da publicação de Gonçalves Dias (1843) até aproximadamente a Semana de Arte Moderna de 1922, a Canção do Exílio foi, basicamente, referência nativista, busca da identidade cultural "perdida" com a Independência. Creio haver dois temas aí subjacentes: a visão idealizada do "paraíso na terra" e a nostalgia do porvir - e os retomarei após apresentar alguns poemas influenciados pelos versos originais, que com aqueles compartilhavam estas características.


Em 1859, Casimiro de Abreu, jovem poeta romântico, estudante em Lisboa, também publicou sua Canção do Exílio:

"Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

(...) O país estrangeiro mais belezas
Do que a pátria não tem (...)

(...) Quero dormir à sombra dos coqueiros,
As folhas por dossel (...)

(...) Quero morrer cercado dos perfumes
Dum clima tropical (...)"


Em 1882, num curioso caso de "migração literária", o poeta goense Pedro Antônio de Souza publicou o seu Goa (Goa era antiga possessão portuguesa, encravada na costa da Índia e dizem especialistas ser provável que o poeta tenha sido influenciado por um poema português, já paráfrase dos versos originais de Gonçalves Dias):

"Minha terra tem mangueiras,
Onde canta o muruoni;
Minha terra é mais alegre,
Mais brilhante o sol dali.

(...) Não permita Deus que eu morra
Sem que eu veja o seu farol,
Suas arequeiras belas,
Seu tão doce pôr-do-sol;
Sem ver as meigas donzelas
De pitambor, noto e chol."


Em 1909, Osório Duque Estrada compôs os versos definitivos do Hino Nacional Brasileiro (música de Francisco Manuel da Silva, de 1822), do qual destaco:

"(...) E o teu futuro espelha essa grandeza.

"(...) Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
Nossos bosques têm mais vida",
Nossa vida no teu seio mais amores (...)"


Em 1943, Guilherme de Almeida escreveu a Canção do Expedicionário (música de Spartaco Rossi), com citações textuais:

"(...) Venho das praias sedosas,
Das montanhas alterosas,
Dos pampas, do seringal,
Das margens crespas dos rios,
Dos verdes mares bravios
Da minha terra natal.
(...) Deixei lá atrás meu terreno,
(...) Minha casa pequenina
Lá no alto da colina,
Onde canta o sabiá.
Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá (...)"


Em 1948, Manuel Bandeira publica Sextilhas Românticas que, suponho, pode ilustrar uma síntese:

"(...) Sou assim, por vício inato.
Ainda hoje gosto de Diva,
Nem não posso renegar
Peri, tão pouco índio, é fato,
Mas tão brasileiro... Viva,
Viva José de Alencar!

(...) Ai tantas lembranças boas!
Massangana de Nabuco!
Muribara de meus pais!
Lagoas das Alagoas,
Rios do meu Pernambuco,
Campos de Minas Gerais!"


Como salientado, desde a Independência aflorou forte sentimento nativista que levou a muitos (por exemplo) à rejeição dos sobrenomes portugueses e à adoção de nomes de origem indígena. Numa palavra, havia que se valorizar o que era "brasileiro" em detrimento, quase xenofóbico, da cultura européia. E assim a busca da identidade do que era natural e nativamente brasileiro desemboca, em primeiro lugar, na exaltação das características naturais da Terra Brasilis: sua beleza, sua exuberância...

Esta não era, propriamente, idéia das mais novas. Desde o século XVI, na Europa, a visão do selvagem em estado puro e da exuberância da floresta tropical contribuiu para a noção de "Éden na Terra", inteiramente encampada pelo Romantismo do século XIX. Mas nem sempre foi assim: nos primórdios da colonização esta era uma terra de degredo, associada ao desconforto material e aos perigos do desconhecido.

Mas a idéia de paraíso que quero enfatizar relaciona-se menos com a natureza que com a sociedade que já vinha sendo construída. Valho-me de Antonil (João Antônio Andreoni), ainda em 1711: “O Brasil é o inferno dos negros, purgatório dos brancos e paraíso dos mulatos e das mulatas”. Ora, a idéia de uma "democracia racial", tão bem elaborada por José Bonifácio (que era nada menos que conselheiro do imperador) apontava para uma nova civilização, diferente de tudo o que até então existira. Pois foram necessários mais 66 anos para que a escravidão fosse abolida, permanecendo o racismo, sob variados graus, até a atualidade.

Esta a segunda característica que gostaria de ressaltar: a idéia, embrionária, de que no futuro serão realizados os desígnios inevitáveis. Creio não exagerar afirmando que, se a saudade portuguesa é, claramente, a saudade do passado - da terra deixada para trás, das glórias de D. Sebastião e das descobertas, do império perdido - a saudade brasileira parece ser a saudade do futuro, do que ainda não se realizou...

A pedidos, para acompanhar a leitura: Aquarela do Brasil (Ary Barroso), 1939, em interpretação sui generis com os chamados "3 Tenores". Talvez a canção de origem brasileira mais conhecida e executada no mundo e que carrega muito da idéia aqui contida: da idealização de uma terra abençada, um paraíso... E ainda Canção do Expedicionário (Guilherme de Almeida/Spartaco Rossi), 1943, música composta para as tropas brasileiras que lutaram na 2ª Grande Guerra.


[continua na próxima da série, que fui obrigado a redividir: serão 4 e não apenas 3]
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

SAUDADE BRASILEIRA (1/5)

Para Udi Tarora: minha terra não tem Palmeiras, tem Santos,
mas sou mesmo é corinthiana...


Uma das mais conhecidas criações do romantismo brasileiro, considerado um dos textos fundadores de nossa identidade e cultura, a "Canção do Exílio" (1843), do maranhense Gonçalves Dias, também é um dos textos mais citados, reescritos e parodiados da literatura brasileira.

Esta série de postagens tem o objetivo de apresentar algumas dessas reinterpretações, ao par de modestas observações deste escrivinhador, provocado por textos publicados no RM NO VERBO (leiam aqui) sobre o tema da saudade. Não há qualquer originalidade nessa abordagem, caminho percorrido por diversos autores (e, de certo modo, mesmo pelos que usaram os versos originais como inspiração). Para uma visão mais histórica e sociológica recomendo o artigo da historiadora Beatriz de Moraes Vieira, "Onde canta o sabiá", publicado na Revista NOSSA HISTÓRIA, ano I, n.5, mar/2004. Para uma análise literária recomendo "O poema e a metáfora", de Wilton José Marques (disponível aqui).

Os versos originais foram escritos depois de longos 5 anos de permanência do autor em Coimbra, onde cursava Direito.


Canção do exílio

Conheces o país onde florescem as laranjeiras?
Ardem na escura fronde os frutos de ouro...
Conhecê-lo? Para lá, para lá quisera eu ir!
Goethe (tradução de Manuel Bandeira)

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."


Ainda que possam ser considerados simplórios, mesmo belos, não há versos mais influentes e duradouros na literatura e cultura brasileiras. Como mencionado, várias dezenas de autores escreveram a partir deles (aqui um site especializado em registrar essas versões) e os divido em 3 categorias, nas quais afloram, respectivamente: a) o sentimento nativista e a busca da identidade nacional; b) a idéia do "país do futuro" e a construção dessa identidade, frente nossa herança histórica e as transformações de um país em rápida modernização; e, c) o exílio "de fato", correspondente a períodos ditatorias da história política brasileira (marcadamente o regime de 64) e a idéia de "futuro interrompido". Grosso modo as 3 categorias correspondem aos períodos: a) dos 100 primeiros anos após a Independência; b) da década de 1920 à de 1960; c) das décadas de 1960-70 e 1980.

Nas próximas postagens abordarei cada categoria em particular e tentarei caracterizar as mudanças ocorridas nas últimas duas décadas.


Sabiá Laranjeira
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